Do que vive um psicólogo? Sobre dinheiro, tabus e escolhas

Atualizado: 12 de Fev de 2019

“Eu não consigo encarar sem desconforto a idéia da vida sem trabalho; o trabalho e o livre jogo da imaginação são para mim a mesma coisa, eu não derivo prazer de mais nada.” Freud (1910)


“As piores dificuldades de um homem começam quando ele se habilita a fazer como prefere.” T. H. Huxley (1893)


“Considero feliz a pessoa que, quando o assunto é o sucesso, olha para o seu trabalho em busca de resposta, e não para o mercado, para a opinião alheia ou para quem a financia.” Emerson (1860)


“ Quem quer dinheiro?” Silvio Santos


“ Não quero dinheiro, eu só quero amar!” Tim Maia 


Ao longo desses anos em nossos consultórios, muitos questionamentos iniciais foram respondidos pela experiência, mas um deles ainda insiste. Espeta. Como uma pulga atrás da orelha, um incômodo. Mesmo depois de anos, ainda o assunto do DINHEIRO na clínica permanece. Como cobrar pelos nossos serviços? O que é possível topar – o que não é possível topar? Em quais proporções? Em quais arranjos? Em que momentos da vida? Em que contextos? Viver de nossos consultórios – dignidade, legitimidade, reconhecimento … há tantas coisas em jogo. Somos muitas vezes solitários no manejo dessas questões e não raras vezes falar e tratar de dimensões do dinheiro parece ser algo TABU entre nós, um pecado. Facilmente o contato com uma realidade concreta – “adultos com contas a pagar “ – parece ser assunto banal e até inconveniente em nossas rodas. 



A circulação do dinheiro em terapia: a desconstrução de um tabu


Tabu compreensível, afinal parece que se reduzirmos nosso trabalho a métricas financeiras há um empobrecimento do que fazemos e oferecemos. Tabu que se evidencia já em nossa formação, nas universidades e espaços de formação: nós nunca somos convidados a pensar e nos preparar para essa dimensão pragmática de nosso trabalho. E quando prestes a sair da faculdade, começamos a nos ligar mais no assunto, vamos nos dando conta que para sustentar um consultório nesse mundo temos que ter dois empregos, ou o famoso “paitrocínio”, ou seja, uma outra fonte de renda. Quem quer um consultório se vê diante desse desafio, construir a partir de si (não tem plano de carreira, não tem patrão, não tem décimo terceiro, férias pagas) um ofício, mas ainda sim um emprego.


Fica aí um desafio que sempre nos acompanha como clínicos: como não negligenciar o dinheiro, nosso salário e ao mesmo tempo continuarmos fiéis a nossa vocação? Como viver nesse lugar fronteiriço, onde estamos dentro de nossos consultórios, autônomos, ali por escolha, criando um trabalho com estilo único, numa lógica que não é de um produto – serviço em massa a ser consumido, mas de algo personalizado, delicado e fundado no cuidado e vínculo?


Da porta do meu consultório para dentro, meu território, minhas regras. Porém, ainda fronteira… eita “ingrato lugar”, porque o consultório não é uma ilha isolada do mundo, nem é um outro planeta distante. O consultório esta aí, nesse mundo: esta enraizado no Brasil, por exemplo, em São Paulo, na classe média, em 2018. O que queremos trazer para a discussão é que apesar de fazermos algo contra hegemônico, estamos inseridos em um contexto e nós não somos alienígenas, somos cidadãos/pessoas civis e precisamos também entrar no jogo e construir vidas possíveis e decentes para nós e nossas famílias.


Nesse “ingrato lugar” temos ainda o desafio de lidar com uma lógica perversa desse mundo onde localizam-se nossos consultórios: a premissa de que quanto maior o valor financeiro melhor, de que o valor de algo, no sentido de sua importância, relevância e qualidade pode ser traduzida em cifras. Não é à toa que com frequência discussões acaloradas e inflamadas dizem respeito ao posicionamento dos profissionais quanto à valorização, ou a falta dela em seu trabalho. A colega da coluna Desha, Wallesandra Rodrigues, na coluna de 19/03/18 “Racismo no Divã” apresentou uma importante fonte de reflexões acerca do exercício clínico: os Grupos de Discussão nas Redes Sociais. É interessante acompanhar os debates, temas e polêmicas lá evidenciados. Isso se expressa em comentários como: “Fico assustadx com o número de pessoas que respondem a uma demanda por atendimento em valor social. Não estudamos vários anos, investimos em supervisões, continuamos a nossa formação para não poder cobrar por um valor que não seja `social`. A quantidade de pessoas que topam isso não é um jeito de valorizarmos a nossa classe e profissão! Afinal – não é justo que a gente pague as contas com o que ganha no consultório?!! “. 


É verdade – a oferta de nosso trabalho que tanto tempo, investimento, energia e seriedade requer… é um trabalho. Que não é fácil. E cuja oferta se constrói de modo muito singular e específico. Não vendemos algo na lógica da produção de massa, um produto para todo mundo e qualquer um consumir. O consultório se sustenta em uma dada ética: não há garantias acerca do que se “pode” obter nessa travessia. Há a aposta de que a jornada pode valer à pena. 


Figueiredo (1996) contribui nessa discussão acerca de quem é o Psicólogo Clínico. Em suas palavras: “Talvez o clínico seja a escuta de que o nosso tempo necessita para ouvir a si mesmo naquilo que lhe faltam as palavras. Se assim for, serão outros os padrões éticos a que deveríamos responder e a ética da “defesa do consumidor” estaria aqui completamente deslocada” (p.40).


Portanto, estamos nesse “ingrato lugar” de vender algo que não é “vendável”. Fundado no nosso posicionamento de que sabemos muito pouco de nosso paciente, de que somos ignorantes diante da verdade dele, abertos para essa jornada complexa de cuidado e compreensão que se abre a cada encontro e que tem valor “imensurável”. Cada um de nós sabe a “dor e a delícia” dessa escolha e o quanto nos custa (em muitos sentidos) sustentar esse caminho. Parodiando Leminski (no poema abaixo citado) – um bom processo terapêutico leva anos…


Nos lembremos de novo, desse lugar fronteiriço e paradoxal de nossos consultórios, queremos vender o “invendável”, ser valorizados por isso, termos uma vida digna sustentada por esse trabalho e ainda vivemos no Brasil – ou nele construímos uma boa parte de nossa trajetória profissional. E nesse sentido, convém um olhar minucioso sobre “que país é esse “– como nos provocaria Cazuza. Porque é nesse país ou na interface com ele que fincamos nossos consultórios (sejam presenciais ou “virtuais”). O excelente veículo Nexo disponibilizou uma calculadora que analisa rendas levando em conta a estatística do país (https://www.nexojornal.com.br/interativo/2016/01/11/O-seu-salário-diante-da-realidade-brasileira). A desigualdade que sabemos enquanto fato indiscutível ganha contornos mais concretos. Por exemplo: No Paraná, quem recebe dois salários-mínimos, ou R$ 1.760, por exemplo, ganha mais do que 71% dos brasileiros e tem um rendimento maior do que 65% dos paranaenses. E estamos nós novamente nesse “ingrato lugar” de querer ganhar honestamente com nosso trabalho, diante de uma realidade em que estamos na maioria das vezes do lado dos privilegiados.


Se é fundamental conferir o devido valor e respeito ao que significa o nosso trabalho, por um lado; tampouco é menos importante um árduo questionamento acerca do que significa exercer esse papel em um país como o Brasil. Será que a oferta de atendimento a um “valor social” seja lá qual ele for implica em uma desvalorização de nossa prática? Valor social para nós será que não representa cifras imensas para quem vive de 2 salários mínimos?


O tema não é fácil e o texto não é um panfleto. Se há algo que o exercício de vir a ser psicólogo clínico nos ensina é o de que não existem fórmulas prontas e cada um deve encontrar seus contornos e lidar com as suas escolhas, Mas como tabu, sabemos da importância de cada vez mais podermos falar das nossas dificuldades com relação ao dinheiro no nosso trabalho. Como poder arejar nossos consultórios, sair do isolamento, dar-nos conta que nenhum consultório é uma ilha e habitar esse lugar fronteiriço e ingrato (ou seria grato?) de poder se ter sustento e viver através do invendável. É admirável que mesmo diante dos percalços, muitos clínicos insistem e persistem e criam todos os dias parcerias de confiança e possibilidades com seus clientes/pacientes. Além de pagar seus boletos no final do mês. E já que essa é uma Coluna Desha – impossível também não fazer menção à plataforma Desha na sua criativa e significativa oferta de valor: a facilidade e flexibilidade para compartilhar espaços; diminuir ociosidades e favorecer o que é tão árduo também: encontrar um consultório para chamar de “seu”. 


Um bom Poema (Paulo Leminski) 

um bom poema leva anos cinco jogando bola, mais cinco estudando sânscrito, seis carregando pedra, nove namorando a vizinha, sete levando porrada, quatro andando sozinho, três mudando de cidade, dez trocando de assunto, uma eternidade, eu e você, caminhando junto


Referências Bibliográficas:

FIGUEIREDO, LC. Revisitando as Psicologias – Da epistemologia à Ética das Práticas e Discursos Psicológicos. São Paulo: Vozes, 1996.


Post feito em parceria com Natália Vidal para Desha. https://coluna.desha.com.br/do-que-vive-o-psicologo-clinico-sobre-dinheiro-tabus-e-escolhas-natalia-vidal-e-valeria-lisondo/

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