Os desafios da prática do acompanhamento terapêutico na interface das queixas familiares

Atualizado: 12 de Fev de 2019


RESUMO


Este trabalho visa disparar uma discussão a partir de um caso clínico, levantando qual o escopo e as estratégias consideradas para a evolução do AT. Os pontos de enfoque serão os desafios encarados para sustentar um trabalho que atenda ao acompanhado na interface da articulação com seus familiares-contratantes. Estes expressam queixas individuais em relação ao atendido, sobrepondo, muitas vezes, as necessidades deles mesmos serem cuidados em suas problemáticas na relação com o paciente. Traçamos a evolução de um trabalho delicado, posto em ameaça de interrupção no momento em que a autonomia do paciente vai abrindo passagens e fluxo para novas possibilidades de circulação. Como construir e manter um contrato que viabilize o AT e inclua a família nessa aposta desconhecida? Como preservar um programa que atenda o enfoque do paciente sem abandonar a família? Ou ainda, sem entrar num conluio familiar normativo e apaziguador dos ‘transtornos erráticos’ e disruptivos do paciente? Como avaliar a eficácia da técnica terapêutica? Como manter uma estratégia para o acompanhado de abertura e novas formas de se relacionar com o fora sem cor-romper as necessidades da família (na maioria das vezes pouco esclarecidas) que muito incluem ‘adequação social’, e que então, põem em ameaça a continuidade do trabalho do at?


O enquadre no trabalho de AT: a delicada tarefa de conter a ansiedade e conviver com a incerteza

INTRODUÇÃO


O presente trabalho visa tecer algumas considerações acerca dos desafios inerentes à prática do at na interface das queixas familiares, baseados no trabalho de um AT que durou cerca de 7 meses. O caso será a ilustração para discutirmos os principais temas selecionados e determinados como eixos norteadores: a) A questão do Enquadre e de Estratégia no Exercício do AT; b) A noção de família como sistema, e então a família como também protagonista na lida com a queixa e a demanda para a prática do at e; finalmente, c) O AT em face da noção de “eficácia da técnica” de sua prática.

Durante conversa informal com um grupo de amigos sobre o AT, uma garota que escuta a conversa desperta interesse sobre a prática discutida, e até então inédita para ela. Inicia-se aí a descoberta de uma nova possibilidade de tratamento para seu pai, diagnosticado com esquizofrenia não especificada há 10 anos, e que, segundo ela, vivia numa enclausurada paralisia de vida frente a pouca oferta de tratamento e baixo recurso especializado.

Algum tempo depois, um novo contato é feito por essa mesma garota na intenção de conhecer melhor as propostas do AT. Marcamos uma entrevista com essa garota e a mãe, respectivamente filha e esposa de Pedro, o suposto paciente. O que mais me chama a atenção neste primeiro contato é a confusão das informações sobre a história clínica e pouco conhecimento do quadro de Pedro. Além disso, não tinham muita clareza do diagnóstico (recebido há 10 anos), imprecisão dos medicamentos que P. tomava, e dados objetivos um tanto esburacados. Parecia se tratar de uma história pouco familiar (contrapondo a natureza das relações). Erica, a filha, discursava um pedido mais esclarecido sobre a expectativa deste futuro, e até então, desconhecido trabalho: buscava alguma alternativa que pudesse propiciar melhor qualidade de vida ao pai. Glória, a esposa, parecia frágil e cansada no papel de cuidadora principal (além da dificuldade de revelar-se outra coisa que não a mulher de Pedro). Fundia-se entre emoções de uma relação conturbada com o marido (antes do início do quadro) somado aos desafios de cuidar de um cônjuge com limitações funcionais para realizar simples atividades do dia-a-dia. Moravam numa casa simples. Além de Glória, Pedro e Erica, também moravam lá outros dois filhos mais velhos.

Aos poucos fui ouvindo os relatos da família e uma profunda mágoa em relação a esse pai ia emergindo. Descreviam-no uma pessoa pouco afetiva, impulsiva, muitas vezes violenta. Manifestava comportamentos intempestivos, histórias de traições com outras mulheres. Até que foi revelado que o quadro de Pedro foi desencadeado pelo o que eles nomeavam de ‘acidente’, que na verdade, segundo a família, tratava-se de um ‘acerto de contas’ por estar envolvido com outra mulher (anunciado à Glória anonimamente por telefone um mês antes do ocorrido). Pedro foi espancado e sofreu sérias lesões físicas e cognitivas, permanecendo em coma por uma semana, tendo sequelas psicomotoras e cerebrais, prejudicando principalmente a fala, a marcha e a memória.

Não foi difícil identificar a grande necessidade de um trabalho de cuidado à Glória. Seus filhos mais velhos insistiam que o ‘problema’ era a mãe que precisava aprender a lidar com a situação. Referiam que o pai estava ‘condenado’ a condição atual, e que nada poderia mudar (nesse sentido não ficou claro para mim se referiam a pouca possibilidade de transformação do quadro de Pedro, ou se referiam a um desejo pouco manifesto de manterem o pai naquela condição desfavorável).


Desenvolvimento: Entrada do at e intervenções


Tendo ouvido essa história atravessada por tantos afetos, desejos, memórias, estabelecemos um contrato inicial de avaliação num primeiro mês. Este período proporcionaria ao at a possibilidade de delimitar o enquadre do tratamento, ou seja, o programa nas palavras de Morin (2001) que serviria para o at conhecer melhor os limites de sua atuação e as propostas de trabalho, mesmo para melhor entender a condição clínica e diagnóstica de P. que mais parecia um paciente demenciado por lesões cerebrais a um esquizofrênico (nos termos atuais, versus a demência precoce). O programa, segundo o autor “é uma sequencia de acções pré determinadas que deve funcionar nas circunstancias que permitem o seu cumprimento. Se as circunstancias exteriores não são favoráveis, o programa pára ou fracassa”. (Morin, 2001, p. 130). Desta forma, o caráter fundamental do programa é sua forma sólida e imutável. Não há variações ou abertura para criação, há uma ‘regra’ clara a ser seguida. Em contrapartida a estratégia cujo corolário é o não saber à priori, atende às variações inerentes da trajetória do AT e das surpresas que surgem a cada encontro, a cada problemática desvelada neste cenário e às conflitivas dentro das relações e condições da atuação.

Respeitando esses dois conceitos foi possível especificar e firmar um contrato de trabalho que ao mesmo tempo mantinha íntegro os acordos fundamentais, mas que também permitiam manobras e aberturas para transformar o inesperado em intervenções possíveis e potentes.


a) A questão do Enquadre e de Estratégia no Exercício do AT


O conceito do enquadre é um elemento central para a psicanálise: se constituiu enquanto alvo de esforço epistemológico de inúmeros autores e é considerado ponto nodal da prática clínica. O aporte de Bleger será o guia condutor de nossas reflexões no sentido de articular a noção de enquadre no território do AT.

Segundo Bleger (2003), o enquadramento psicanalítico envolve: o papel do analista, o conjunto de fatores espaciais (ambiente) e temporais, e parte da técnica(na qual se inclui o estabelecimento e a manutenção de horário, honorários, interrupções planejadas etc.). (Bleger, 2003, p. 46). A maneira como se opera tal composição no exercício do AT também parece ser crítica para assegurar o trabalho terapêutico nessa distinta modalidade.

- Conforme mapeado no recorte de nosso caso clínico: quais os limites da sustentação de um trabalho que depende tão maciçamente da participação conjunta da família na consolidação desse marco de trabalho? Qual a técnica a ser endereçada para desvendar e manejar a família “patrocinadora” de um projeto de AT desde que o mesmo não perturbe o status-quo alcançado?

- Tendo em vista que o AT se caracteriza pelo imprevisto, pela espacialidade “mutante” de uma “clínica nômade” por excelência, qual e como seria a instituição do enquadramento a ser criada nesse cenário?

Partimos da reflexão que não só o trabalho do AT carrega a especificidade do incerto, mas que a própria condição da vida nos defronta com o inesperado, o surpreendente. E que o at, junto ao seu acompanhado, estando lançados num setting menos protegido, e exposto às forças do fora (Rolnik, 1997) do cenário urbano, consequentemente ficarão mais suscetíveis a serem afetados por esses eventos e imprevistos.

De acordo com Morin (2001, p. 129) “todo o universo é um cocktail de ordem, de desordem e de organização”. Diz ele que a ordem“é tudo o que é repetição, constância, invariância, tudo o que pode ser colocado sob a égide de uma relação altamente provável”. Ao passo que a desordem“é tudo o que é irregularidade, desvio em relação a uma estrutura dada, aleatório, imprevisibilidade”. O pensador segue assinalando que nenhuma condição de vida e organização seria possível se esses sistemas não alternassem entre esses opostos. Falando nos termos de um trabalho de AT, é como se a absoluta ordem inviabilizasse a expressão íntima e criativa de cada um. Seria quase que um existir autômato e cristalizado, com pouca abertura para transformação, movimento, circulação e afetação por outros cenários. Num primeiro momento, ouvimos um pedido por parte de Erica que vai ao encontro desta proposta: mobilizar o que está paralisado, ajudar Pedro a criar novas condições de estar no mundo quebrando a ordem estática de se manter sentado na sala o dia todo assistindo TV. Entretanto, essa escuta também captava a mensagem oposta transmitida pela família no sentido de que P. 'estaria condenado' à tal situação . O manejo dessa escuta ambivalente também nos parece central. É necessário

fazer aliança com a porção discursiva que aposta nas chances e potenciais de deslocamento e amplitude existencial de P. Sem deixar de considerar que outros vetores discursivos o “congelam” na frágil situação vigente.

Apostar em tais potenciais de deslocamento é trabalho do at. Para articular ao conceito de Rolnik (1997) é o que ela definiria como as possibilidades de afetação e movimentação das dobras da subjetividade impactadas por forças do ambiente. O que seriam essas forças se não os próprios imprevistos da ação, do movimento, somado aos inevitáveis estímulos que o viver em sociedade nos provoca?

Nesse um mês de avaliação foi possível fazer algumas observações importantes na dinâmica familiar. Primeiro que P. dificilmente saía de casa. Relatavam que ele não ‘obedecia’ aos comandos para andar na calçada, que "propositalmente" adquiria um ritmo lento. Era muito trabalhoso e cansativo para a família. Além disso, numa dada situação permitiu que se revelasse um esquema em que discretamente preservavam P. dentro de casa, mantendo o esgarçar de sua autonomia. O mesmo não possuía as chaves da própria casa e também não estava ‘autorizado’ a sair sozinho. Sua esposa argumentava dizendo que ele provavelmente não se lembraria onde colocaria as chaves, ou que se perderia no caminho para voltar para casa. Um discurso que aparentemente carregava um tom de cuidado, mas que perversamente ia mantendo P. num lugar restrito e de dependência. Se falamos de afetações pela exposição e participação do/no fora, é importante trazer as características do lugar que morava essa família, pois tendo o impacto da experiência de vida na Grande São Paulo, fica quase descabido o questionamento sobre os perigos de se deixar uma pessoa pouco orientada sair sozinha na rua estando numa condição singular (inclusive física) prejudicada. Seria muito natural e, em alguns casos, prudente ouvir que a família não permite que o parente-paciente saia rua a fora em São Paulo estando tão debilitado. Queremos marcar esta distinção abissal entre as condições de se morar na cidade de São Paulo comparada a cidade da família de Pedro. Moravam numa cidade pequena da Grande São Paulo, com características interioranas quanto à disposição da cidade: o centro era uma grande praça frequentado por moradores à pé; casas de alvenaria, poucos prédios; trechos de rua em paralelepípedo; sistema de mobilidade urbana escasso e pouco efetivo. Sempre que saía a rua com P. cruzávamos muitas pessoas que o reconheciam e que inclusive ajudavam-no a recuperar partes de sua história. Eram vizinhos, conhecidos que remendavam lacunas de sua memória. P. ia remontando o bairro, chegando a iniciativa de questionar às pessoas sobre as transformações sofridas no local, perguntando se os proprietários continuavam os mesmos. Algumas pessoas abordadas reconheciam P. e perguntavam sobre sua saúde. Outros, mais jovens, demoravam a saber a quem P. se referia, pois eram pessoas de outras gerações. P. estava vivendo de novo, recriava laços e história, voltava a pertencer a seu bairro. Repetia com entusiasmo quando conhecidos lembravam de algum momento peculiar. P. ampliava-se e movimentava as dobras de sua subjetividade com as afetações e estímulos que ficava exposto, e que há muito tempo deixara de receber. Cabe apontar que cenas como essas também eram elucidativas da arte de ser at: reconhecer que personagens outros da vizinhança e do bairro poderiam ser os protagonistas terapêuticos ao invés do profissional designado enquanto tal. A sua competência e expertise nesse sentido seria a de afastar-se, “retirar-se” afim de abrir espaço para que outros vetores participem e promovam o ampliar de P.

Essas vivências me permitiram entender e clarificar a expectativa de Glória em relação ao meu trabalho. P. era menosprezado em qualquer atividade que potencialmente pudesse realizar. Enquanto eu o estimulava e o encorajava, Glória, entediada, comentava que P. jamais conseguiria completar tarefas que pudessem ajudá-lo a resgatar minimamente certo grau de autonomia, e a não ficar absolutamente submetido à sua esposa.

Para funcionalidades como amarrar o cadarço, usar o telefone, entrar e sair de casa, ícones que simbolizam expressamente o contato com o externo, a ligação com outras pessoas e outros espaço, Glória se institucionalizou como mediadora de P., como se precisasse de sua autorização e consentimento, agora, detentora do poder e controle de seus atos. Era impossível não enxergar a mágoa estampada que essa mulher ressentia em relação às “safadezas" que o marido “aprontava” no passado. Assim, com o passar do tempo, toda a mágoa e rancor, e o esgotar da paciência, retiraram de P. a oportunidade de ser uma pessoa ativa, ou de preservar alguma autonomia. Eu, enquanto at, não estava ali para julgar seus pecados. Para o meu trabalho não importavam os motivos

do acidente. Importava saber o posicionamento de cada membro, como cada um se sentia e reagia. Foi importante para meu trabalho manter isso em mente e não criar conluios com nenhuma das partes.

Enquanto eu suportava o tempo e ritmo consideravelmente mais lento de P. foi-se descobrindo que ele era capaz de fazer algumas coisas. Sua incapacidade, na verdade, foi se revelando uma falta de paciência da famíla em esperar P. fazer suas coisas no seu tempo, ou não desejavam que P. pudesse escapar-lhes novamente do controle. Ademais, P. continuava bastante debilitado, e algumas sequelas talvez nunca pudessem ser superadas. A verdade é que não sabíamos. E conforme P. foi sendo estimulado e acreditado, automaticamente exigia-se sim outro tipo de dedicação da família, que seria mais no sentido de supervisionar atividades mais complexas ou difíceis para o acompanhado, e não de interceptá-lo e realiza-las por ele.


b) A noção de família como sistema. A queixa e a demanda na prática do AT;


O caso clínico do AT retratado nos permite pensar no at enquanto “pêndulo” oscilante entre queixas familiares e demandas trazidas à tona de outra ordem na experiência com o acompanhado. Vale frisar o desafio para o at: por um lado apresentar-se disponível para essa família, propiciando-lhe uma oferta de escuta e continência, e por outro lado, respeitar os limites e zelar pelo processo, sem cindir o paciente da pertença dessa família. E vice-versa. A compreensão profunda da natureza da relação entre a família e o portador de sofrimento mental é fundamental para que o at possa exercer seu movimento “pendular” na cadência do processo e em direção à estratégia terapêutica com o seu cliente, e com a correlata interface familiar em jogo no sistema.

Pretende-se discutir quais os “refletores” que poderiam iluminar a travessia do AT no manejo da sua estratégia- prática na interface com as queixas familiares. Um dos subsídios identificados é a obra de Berenstein (1988), que contribui ao correlacionar a noção de família à noção de sistema de modo articulado e fino. O autor se vale de modelos derivados da teoria da comunicação e da linguística para fundamentar essa perspectiva. Serão recortados alguns pontos assinalados por Berenstein (1988) que nos parecem decisivos para a apreensão desse conceito, bem como à elucidação do caso em questão.

O sistema do ponto de vista da teoria da comunicação, mais especificamente o sistema estável – que é o caso da família na medida em que algumas de suas variáveis possuem tendência a se manterem dentro de limites definidos - é caracterizado por algumas propriedades4.

O sistema do ponto de vista da linguística é concebido a partir da matriz conceitual que propõe o corte metodológico entre fala e língua5. O autor aprofunda-se em muitos vetores da linguística para fundamentar e consolidar a sua articulação teórica da família enquanto sistema e da lógica subjacente a esse pressuposto. Frisamos as propriedades interdependentes de solidariedade e valor para elucidar essa perspectiva:

(...) todos os termos da língua são solidários ou interdependentes, de tal forma que um termo implica o outro e vice-versa. A unidade linguística possui um valor determinado, limitado e definido pelo das outras entidades do sistema. Com a noção de sistema, trata-se de estabelecer o nível de homogeneidade entre elementos heterogêneos. (Berenstein, 1988, p.55).

Estabelecidas essas definições, o autor defende que o sistema social da família também é modelado pelo corte língua/fala. Propõe como língua o conjunto de regras inconscientes (na maior parte das vezes) que regulam o funcionamento do grupo, e, como fala as realizações individuais dessas regras inconscientes. (Berenstein, 1988, p. 57).

A família enquanto sistema definido nesses moldes nos pareceu um guia precioso na compreensão e manejo do caso clínico. Ter em vista que a família de Pedro se agrupa em um sistema tem a ver com deter-se no conjunto de relações às quais os comportamentos de Pedro estão vinculados, isto é, determinados e, ao mesmo tempo, determinantes. A especificidade do trabalho do AT o expõe constantemente e concretamente nos meandros dessas tessituras familiares. Compreender quais as propriedades em jogo nesse sistema nos parece imprescindível para trazer à tona seus paradoxos, impasses e desafios. Por exemplo: ao identificar a natureza sutil do equilíbrio do sistema, no qual o desajuste significa “disfunção”, mas também, estabilidade.

O caso em questão nos provocou uma série de indagações a esse respeito: a família como sistema palco de língua/fala. Indicamos, na sequência, algumas delas: Qual a “língua” inconsciente que opera no caso: Seria um desejo da família manter Pedro restrito a uma condição mínima, encerrado pelos muros da casa, à mercê das vontades e desejos de G. e demais filhos? A “fala” como manifestação individual de Erica (ao procurar a at) reveladora de uma ambivalência do sistema familiar perante a figura do pai: um sistema que deseja oferecer-lhe tratamento, cuidados e aberturas, ao mesmo tempo em que parecem ressentir dessa oferta.


c) O AT em face da noção de “eficácia da técnica”de sua prática.


O trabalho do AT – dispositivo6 que emerge do campo da estratégia – traz questões inerentes sobre sua eficácia nos dias de hoje. Afinal, como podemos afirmar que esse processo deAT com P. foi bem ou mal sucedido? O que significa eficácia do tratamento, levando em conta que este se realiza no campo da singularidade e do trabalho personalizado e não massificado e homogêneo predominante nas demandas atuais?

Um caminho para nos aproximarmos e clarearmos essa questão e seus possíveis desdobramentos é nos determos e ouvirmos o que atualmente se entende por eficácia. Vivemos em uma época marcada pela objetividade, rapidez, controle, na qual o pensamento calculador, lógico e racional predomina – Época da Técnica7. Estamos em busca daquilo que “resolve”, que traz resultados claros e definidos. Como meio predominante de se chegar a essa eficácia lançamos mão da técnica, um conjunto de procedimentos utilizados para se alcançar resultados, tendo como características a impessoalidade, - a técnica deve servir para qualquer um - a precisão de seus objetivos e a rapidez. A técnica, com seu controle e eficiência, é a referência predominante para se alcançar o conhecimento e a verdade no mundo contemporâneo. Ela permite avançar em tecnologias e se apoderar da natureza, é o desenvolvimento do “pensamento calculante”, onde todas as coisas tornam-se mensuráveis e controláveis. Essa lógica resguarda o homem (no sentido ontológico) e a natureza como pano de fundo, ou meras ferramentas para se alcançar um objetivo, geralmente reduzido a um produto material, palpável e bem delimitado. Nessa dinâmica, esvaziam-se os valores dos procedimentos que não correspondem a esse modo, tecendo com perigo a depreciação dos fenômenos ontológicos. “Hoje tudo o que faz parte da realidade é visto como produção, tudo se enquadra nesse esquema, e o que não se enquadra não é digno de ser pensado”. (Pompéia, 2011, p. 126). O autor quer dizer que aquilo que foge da produção material não é digno de se debruçar sobre, como se o pensamento meditativo), cuidadoso e reflexivo fossem mera perda de tempo, uma dedicação sem finalidade ou funcionalidade, pois, argumentam, não servir para nada quando nada é produzido. Este é um pensamento que consideramos bastante equivocado.

A proposta do AT aponta uma referência diversa da técnica. Apesar do at estar imerso na Era da Técnica, ele não responde exclusivamente a ela, mantém um olhar amplo para seu acompanhado e sua rede, assim, também irá se debruçar e se deter sobre as questões que a técnica julga “não serem dignas de serem pensadas”. O resultado do trabalho não é visto como um meio de se produzir resultados de forma rápida, calculista e precisa, mas meio de se produzir encontros genuínos e ampliações de referências na vida do acompanhado, é o procedimento da téchne no sentindo originário grego da palavra, que é o processo que permite que alguma coisa que ainda não é passa a ser (Pompéia, 2011), ou seja, como a expressão dos devires. Pensando no caso de P. podemos ilustrar com elementos como histórico familiar; relação atual com família e amigos; vínculo com a at, rede, vizinhança, etc permitiram que uma estratégia de atendimento pudesse ser criada de forma artesanal, sempre aberta a reformulações e tendo em vista não a “cura” a extirpação de um “mal”, da “loucura”, mas a garantir um espaço de cuidado respeitoso e afetuoso, buscando ampliar/resgatar territórios e incentivo a autonomia de P.

O desafio da prática do AT é construir uma relação sustentável para seu trabalho, sabendo que ele não pode estar exclusivamente a serviço da técnica, mas o at não pode ser ingênuo e esquecer que também está sujeito às forças e ao poder da técnica. Assim, deve estar atento e colocar a eficácia como uma pergunta viva em seu trabalho: A serviço do que estou criando as estratégias desse AT? E a resposta deve sempre apontar para uma maior articulação de seu acompanhado na rede e uma maior potencialização das possibilidades saudáveis de seu paciente. Mas tal resposta talvez seja insuficiente. É necessário também manter viva uma postura lúcida quanto à aceitação dos limites impostos pelo modelo próprio do AT. Embora possamos nos aliar com a

aposta na transformação e movimento de P., tal efeito pode ser demasiadamente disruptivo para os demais membros da família. Acomodar o sistema familiar em uma configuração distinta – que acolha e abrace P. desde as suas capacidades e possibilidades, como nos ensina Berenstein - está longe de ser tarefa fácil. A assistência e continência ofertada para a família pelo at é parcial. E não dá conta (nem deve) de atender aos membros da família de modo mais intensivo e individualizado. Afinal P. é o cliente do at. Como fazer quando há demandas maciças de escuta e de trabalho com outros membros da família que não seguem a recomendação de buscar um fórum terapêutico outro no qual possam se haver com os seus enigmas, desejos ambíguos , ressentimentos passados – como no caso de Glória? Apesar de concordar com a necessidade de buscar ajuda para si, G. se mantinha resistente a qualquer tipo de tratamento ou acompanhamento endereçado a ela, oficializando apenas P. como o paciente identificado, ao invés de considerar a família como um sistema a ser cuidado.


Considerações Finais


O AT é uma tecnologia de saúde e social inovadora, jovem e ainda pouco conhecida. É desafiador nesse sentido, pensar em uma definição do que é afinal essa clínica do AT9. Essa dificuldade em nomear essa prática também pode apontar para as dificuldades de garantir à família (como o faz as tecnologia) os limites e possibilidades de um processo de AT. É muito provável que ainda hoje em dia as famílias desconheçam essa prática (bem com uma larga fatia de profissionais da saúde), por isso a complexidade e importância de se estabelecer um enquadre cuidadoso, no qual o papel do at e o sentido do seu trabalho fique claro para o acompanhado e para a família-contratante. Bem como ressaltamos a importância de se articular o trabalho do at com outros profissionais envolvidos nos cuidados da pessoa acompanhada.

Cabe resgatar as noções de projeto e estratégia sinalizadas no início (a partir do referencial de Morin) com o intuito de ressaltar a arte de fazer estratégia no exercício do AT. Entendemos que é impossível partir de um modelo previamente conhecido, de um projeto estanque que possa ser descrito em termos de começo, meio e fim. Se isso também é verdade na experiência da clínica convencional (consultório), torna-se verdade ainda mais radical no território do

AT ancorado no nômade –“errante” – caminho de tropeços; imprevistos e poucos saberes. Observamos que fazer tal estratégia não está relacionado apenas à posse de um conhecimento conceitual. Mas responde também à uma dimensão estética (Kupermann, 2009): o at como artista de uma clínica sensível e criativa capaz de transitar e se constituir naquilo (e a partir) do que desconhece.

O at, através do vínculo ético e cuidadoso que estabelecerá com seu acompanhado, pro-cura ampliar seu território. O at tem como uma de suas funções fundamentais articular a rede do acompanhado - árida, pobre e frouxa – ampliando as referências, o contatos e os vínculos. Isso ele faz junto ao acompanhado, o AT é uma clínica da ação: é in loco, na casa de P. que a at podia testemunhar de forma privilegiada as relações familiares e intervir no momento em que ela acontece, em tempo real. Diferente do setting psicoterapêutico, o setting do at é móvel, complexo: o at está menos protegido, a lida não é só com o acompanhado, mas com toda a vizinhança e há sempre as surpresa dos encontros no território. A potência do at é estar com seu acompanhado exposto ao inédito da rua, é nas andanças pela pequena cidade que P. pode ir se revelando, ir se relembrando, ir refazendo a sua história e permitindo ser autor ativo de sua história futura, quando deseja visitar a irmã que não via há dez anos ou quando é reconhecido pelo conterrâneo na calçada e resgata sua memória e seu passado.


Notas


1 Psicóloga formada na PUC-SP; Curso de AT pela ATUA; especialização em Psicologia da Saúde e Psicoterapia Psicodinâmica dos Transtornos de Personalidade pela Unifesp. Foi colaboradora do CAPS Unifesp por 2 anos. Atualmente é mestranda em psicologia clínica pela USP. Trabalha desde sua formação como psicóloga clínica e at.

2 Psicóloga formada na PUC-SP.; Curso de AT pela ATUA e Humanitás; especialização em Saúde Coletiva pelo Instituto de Saúde da Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo; AprimoramentoProfissional Clínico Institucional na Clínica Ana Maria Poppovic da PUC-SP. Atualmente integra o grupo TRILHAS com intervenções na saúde mental na rede pública. Trabalha desde sua formação como psicóloga clínica e at.

3 Psicóloga formada na PUC-SP; Curso de AT pela ATUA; especialização no campo da gestão pela ESADE – Barcelona e FGV- SP (CEAG). Atua nas áreas da psicologia clínica, de consultoria a empresas familiares pelo Instituto Lisondo e é at.

4 Destacamos as seguintes propriedades: “a) Totalidade: corolário- não somatividade. A família não é a soma dos seus membros, mas todos eles formam um sistema onde a modificação de um induz à do resto, passando o sistema de um estado a outro. b) Homeostase: define a estabilidade do sistema ou seu estado de equilíbrio, e a correção e volta ao estado inicial, assim como o desvio, cada vez maior, desse estado (...). O sistema tem mecanismos para voltar ao estado inicial de equilíbrio, mas pode-se incrementar o desequilíbrio no sentido do desenvolvimento ou da patologia (...). Por exemplo, numa família com um membro esquizofrênico , quando adquire uma forma de funcionamento não esquizofrênico, como resultado da terapia, contradizendo a imagem que o grupo familiar tem dele, isto pode determinar reações nos pais que procuram, inconscientemente, levá-lo à forma anterior, forçando-o, sem saber à reassumir a forma de ser esquizofrênica para restabelecer um tipo de equilíbrio”. (Berenstein, 1988 p. 49-50).

5 Nas palavras do autor: “Fala é a realização empírica, que consiste em manifestações individuais e momentâneas, e língua refere-se ao sistema supra- individual, ordenador das manifestações individuais da fala. A língua, enquanto sistema, abrange o nível de homogeneidade que inclui os fatos heterogêneos da fala”. (Berenstein, 1988 p. 52).

6 “(...), um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é q rede que se pode estabelecer entre os elementos” (Foucault, 2012, p.244). 

7 Época da Técnica- Referência trazida pelo pensamento do filósofo Martin Heidegger para descrever a contemporaneidade, afirmando que a técnica é o que caracteriza fundamentalmente a nossa época. Ela não é um mero fazer humano, mais é a nossa marca predominante de acesso de mundo e construção de verdades. Para saber mais vide: Heiddeger M., A questão da técnica (1953) In: Ensaios e conferências, tradução de Emmanuel Carneiro Leão, Petrópolis: Vozes, 2001.

8 “Atecnologiadevesercompreendidacomoconjuntodeferramentas,entreelas as ações de trabalho, que põem em movimento uma ação transformadora da natureza. Sendo assim, além dos equipamentos, devem ser incluídos os conhecimentos e ações necessárias para operá-los: o saber e seus procedimentos.” (Schraiber et all, 1999) Retirado do Verbete “Tecnologia em Saúde”, Dicionário de Educação da Profissional de Saúde, Fiocruz. http://www.epsjv.fiocruz.br/dicionario/verbetes/tecsau.html

9 O artigo de SILVA E SILVA (2006) pode ser esclarecedor para a compreensão do contexto em que o AT surgiu e de como esta é uma clínica em transformação. Ancora-se no fortalecimento e criação de práticas dos/nos serviços substitutivos com a reorganização da Rede de Saúde Mental e pós-Reforma Psiquiátrica. Aponta sua complexidade no atravessamento político, estético e artístico da dinâmica clínica do AT.

Nas palavras do autor: “Fala é a realização empírica, que consiste em manifestações individuais e momentâneas, e língua refere-se ao sistema supra- individual, ordenador das manifestações individuais da fala. A língua, enquanto sistema, abrange o nível de homogeneidade que inclui os fatos heterogêneos da fala”. (Berenstein, 1988 p. 52).

“(...), um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é q rede que se pode estabelecer entre os elementos” (Foucault, 2012, p.244).


Referências bibliográficas


ANDRADE, C. D. Antologia poética. 66. Rio de Janeiro: ed: Record, 2010. p. 414 BERENSTEIN, I. Família e doença mental. São Paulo: Escuta, 1988. BLEGER, J. Simbiose e ambiguidade. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977. BLEGER, J. Psicanálise do enquadramento psicanalítico. Revista de Psicanálise Pulsional, São Paulo, ano XVI, n.170, Junho/2003.

CAMARGO E.M.C.O acompanhamento Terapêutico e a Clínica, In: A rua como espaço clínico: Acompanhante Terapêutico. Equipe de Acompanhantes Terapêuticos do Hospital – Dia A Casa(org). São Paulo: Escuta, 1991. FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. (1979) 30ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2012.

KUPERMANN. D. Presença sensível:cuidado e criação na clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. POMPÉIA, J. A. e SAPIENZA B.T. TERAPIA E A ERA DA TÉCNICA. In: Pompéia J.A. e Sapienza B. T. Os dois nascimentos do homem: escritos sobre terapia e educação. 1 edição. Rio de Janeiro: Via Verita, 2011.

SILVA A. S. T.; SILVA, R. N. A emergência do acompanhamento terapêutico e as políticas de saúde mental. Psicologia ciência e profissão, Brasília, v. 26, n. 2, jun. 2006 .

ROLNIK, Sueli. Clínica nômade. In: EQUIPE DE ACOMPANHANTES TERAPÊUTICOS DO HOSPITAL DIA A CASA (org).Crise e cidade: acompanhamento terapêutico. São Paulo: EDUC, 1997.

SCHRAIBER, L. B. et al. Planejamento, gestão e avaliação em saúde: identificando problemas. Ciência & Saúde Coletiva, v. 4, n. 2, p. 221-242, 1999.


AUTORIA

Por: Andrea Morganti, Natália Vidal, Valéria Lisondo

| CONGRESSO POLIFONIA | SP, 2012. 

Publicado na Revista ATravessar - No 4 • 2o Semestre de 2014 (pp. 93-107)

6 visualizações

© 2018 - Valéria Lisondo. Desenvolvido por Mariel Meira