Reflexões acerca da Família e da atualidade: um ensaio

Atualizado: Abr 20

Há tempos a questão acerca da noção da Família tem me intrigado. Por um lado, o esforço em estudar o tema da transmissão psíquica direcionou meus esforços a debruçar-me no tema de cadeias geracionais e de como os grupos familiares se situam nesse continuum de tempo acomodando a oferta do que lhes foi transmitido com aquilo que passam a transmitir. Por outro lado, o tema também me capturava por vértice distinto: observar nos últimos tempos o expressivo magnetismo de um discurso que enaltece e reveste a instituição da Família de “sagrada” conotação também suscitava perguntas. Sabemos que não se trata de inédito movimento. Afinal, a que serve o retorno dessa narrativa? Até que chegou o dia 13 de março e aconteceu o trágico acontecimento na escola de Suzano. E tudo se adensou de forma diferente: ouvir em tantos canais da mídia a noção de família veiculada como “ente” absoluto(1) não foi apenas motivo de instigantes questionamentos para mim. Foi experiência profunda de aperto e dor. Porque nas entrelinhas desse discurso era esmaecida a perversa gramática social que nos atravessa: a de laços e pactos sociais esfacelados. O brutal se reeditava no afã de simplistas respostas (Seria “culpa” do Bullynig? Dos violentos videogames? Da “família”?) . Trata-se de um acontecimento que nos exige tanto: jovens que morrem em uma escola. Jovens que matam em uma escola. Quantos colapsos marcam o dia 13/03/19?

A Família é tema fundamental para a psicanálise. Trata-se de uma instituição, e, portanto, segundo Enriquez (1989) de um suporte existencial no qual se faz possível manter ou renovar as forças vivas de uma comunidade, permitindo aos seres humanos serem capazes de viver, amar, trabalhar, mudar e, talvez, criar o mundo à sua imagem (p. 73). A família, em grande parte dos casos é a instituição anfitriã do bebê que nasce. É a partir desse “microcosmo(2)” que o infans tem chances de constituir-se como sujeito. Portanto, a família é o contexto para o “devir-vir-a-ser”. O tema é denso, mas vale pontuar que a passagem pelo Complexo de Édipo é marca fundamental daquilo que alicerça a nossa condição de humanos: a lei, os laços sociais (por mais esburacados que se encontrem) segundo os quais nos organizamos socialmente e rejeitamos o tempo do “imperativo da barbárie” situado por Freud no mito científico de Totem e Tabu (1914). Nas palavras de Roudinesco e Plon (1998):


“ Freud, por sua parte, ansiava por dar uma explicação global da origem das sociedades e da religião a partir dos dados da psicanálise, ou, dito de outra maneira, dando um fundamento histórico ao mito de Édipo e à proibição do incesto e mostrando que a história individual de cada sujeito não é mais do que a repetição da história da própria humanidade”. (p. 757).


A Família, portanto, é a instituição guardiã de uma lógica que se sustenta no decorrer do tempo: a reedição de um pacto social no percurso de gerações. A capacidade de renunciar é sustentada pela oferta de modelos identificatórios que transmitem o potencial futuro de novos ganhos. Constatar a diferença de gerações e a lida paciente com o tempo que acena a condição de projeto futuro é sofisticado feito nesse caminho. Acontece que essa operação envolve muitas camadas. Para alguns autores da psicanálise o estudo desse fenômeno resultou em espécie de “virada copernicana” uma vez que reconfigurou as forças e a constelação de elementos que incidem na constituição de sujeitos. Kaes (1989) foi um deles:


“ Aqui somos confrontados não apenas com a dificuldade de pensar aquilo que por um lado, nos pensa e nos fala: a instituição nos precede, nos determina e nos inscreve nas suas malhas e nos seus discursos; mas, com esse pensamento que destrói a ilusão centrista de nosso narcisismo secundário, descobrimos também que a instituição nos estrutura e que contraímos com ela relações que sustentam a nossa identidade” (p.20).


Confesso que a metáfora acerca da “virada copernicana” me pareceu algo pretensiosa na primeira vez em que a ouvi(3). Agora medito e me parece uma imagem quiçá oportuna. Porque ainda é tão custosa a acepção radical de que a “ épica psíquica” de vir a se constituir como sujeito também se ancora em grupos em instituições em uma história. Em um espectro mais amplo de elementos. Piera Aulagnier (1975) e a sua contribuição com a noção de “Contrato Narcisista” tem especial importância nessa perspectiva. Violante (2001) – estudiosa da autora- aponta:


“Isto significa que é necessário, mas não suficiente que os pais pré- enunciem e pré-invistam no novo ser que nascerá, reconhecendo-o e nele investindo, após seu nascimento. Também é necessário que o grupo social reserve um lugar a esta criança e a invista como legítimo ocupante deste lugar. `O investimento pelo grupo antecipa o investimento do grupo pela criança” (p.59).


Esses aportes são valiosos porque oferecem estímulos para nossas questões ao mesmo tempo em que endossam a seguinte perspectiva: tal qual uma fita de Moebius na qual não se distingue o “dentro” e o “fora”; o campo da família e o entorno do social se interpenetram e determinam conjuntamente assim como a leitura do intrapsíquico não se divorcia da incidência de forças dos vínculos intersubjetivos e de uma história transgeracional.


Representação gráfica de uma fita de Moebius


Voltemos ao começo do texto. Era março e falávamos da Escola de Suzano. Chegou abril e Evaldo Rosa dos Santos – músico negro em passeio de domingo com a sua família foi fuzilado por 80 tiros disparados por agentes do Estado. São trágicos acontecimentos que marcam o cotidiano brasileiro e atingem com atroz violência especialmente os corpos dos índios, índias, negras, negros e pobres. Impossível esquivar-se da pergunta: que pacto social é esse arquitetado no Brasil segundo o qual o fuzilamento pode ser o destino de certas inocentes famílias? Ou ainda: como dar sentido à renúncia correlata a todo pacto em circunstâncias tão brutais? Quais ganhos, pertença e projeto pode ser vislumbrado nessa paisagem?

É por isso que é tão cara para essa reflexão a noção de “Contrato Narcísico” esmiuçada por Violante (2001). Ajuda a dar textura para os “nós” que oferecem suportes no decorrer do tempo ao mesmo tempo em que convida a pensar na consistência dos mesmos.


“Para que a criança se autonomize do meio familiar, mas sem perder todo o suporte identificatório, é necessário que ela encontre no discurso social referências que lhe permitam projetar-se em um futuro passível de investimento, no qual supostamente ela realizará seu projeto identificatório” (p.59).


Ora, que referências os nossos discursos sociais têm criado em prol de sustentar esse futuro passível de investimento? É uma boa pergunta. E talvez o discurso que realça a “ desordem” da Família como chaga fundamental da sociedade brasileira seja a torpe tentativa de oferecer algo. Esforço que não se descola da incessante defesa de uma certa noção de “tradicional” Família tingida de divinas feições.

Maria Rita Kehl no seu sagaz texto “ Em defesa da Família Tentacular(4)” é capaz de problematizar a natureza dessa narrativa:


(…). Não é necessário retrocedermos até as revoluções burguesas europeias para procurar o que se perdeu no ocidente, e particularmente no Brasil, a partir dos anos 1950. Basta recordar o que foi a “tradicional família brasileira” para perguntar: o que estamos lamentando que tenha se perdido ou transformado? Será que a sociedade seria mais saudável se ainda se mantivesse organizada nos moldes das grandes famílias rurais, a um só tempo protegidas e oprimidas pelo patriarca da casa grande que controlava a sexualidade das mulheres e o destino dos varões? Temos saudade da família organizada em torno do patriarca fundiário, com sua contrapartida de filhos ilegítimos abandonados na senzala ou na colônia, a esposa oficial calada e suspirosa, os filhos obedientes e temerosos do pai, dentre os quais se destacariam um ou dois futuros aprendizes de tiranete doméstico? O sentimento retroativo de conforto e segurança que projetamos nostalgicamente sobre o patriarcado rural brasileiro não seria, como bem aponta Roberto Schwartz em As ideias fora do lugar, tributário da exploração do trabalho escravo, que o Brasil foi o último país a abolir já quase às portas do século XX?


Como profissionais do campo “ psi” é imensa a nossa responsabilidade. Porque facilmente o nosso campo pode se prestar a avalizar leituras que reproduzem crueldades. O texto de Kehl é brilhante no alerta transmitido: afinal, quantas vezes não ouvimos o termo “ família desestruturada” como naturalizada acepção ou nostálgico lamento?

Como profissionais do campo “psi” também é decisiva a reflexão acerca da história que nos antecede. É nesse país desigual, complexo, patriarcal, racista, diverso, violento no qual chegamos ao mundo se brasileiros somos. A resistência também passa por não nos intimidarmos diante dessa laboriosa tarefa. Digo isso porque foi desafiador escrever esse texto: comecei muitas vezes. Parei. Quase desisti. O árduo não é apenas o esforço intelectual. É a entrega para afetar-se. Vivemos um momento tão sofrido. Esse ensaio foi a tentativa de fazer algo com isso. O Brasil não é para principiantes, diria Tom Jobim. Talvez a sua frase nos convoque justamente a assumir esse lugar: o de modestos principiantes frente ao “enorme passado pela frente” que nos interpela. Eis o fruto desse principiante esforço.

NOTAS DE RODAPÉ

(1) A família como “ente absoluto” quer dizer: a família divorciada da sua articulação com o campo social no qual está inserida. Nesse sentido, vale conferir o artigo de Rita Lisauskas: “A senhora se sente culpada de alguma forma? ”. https://emais.estadao.com.br/blogs/ser-mae/a-senhora-se-sente-culpada-de-alguma-forma/

(2) O bebê pode vir a se constituir como sujeito graças a um ambiente que pode assumir a responsabilidade de ser o seu anfitrião. Nesse sentido atores que não correspondem à família biológica da criança podem operar como família: exercer a função dessa instituição.

(3) No II Colóquio Internacional da Rede Interuniversitária Grupos e Vínculos Intersubjetivos ocorrido no Mackenzie (18/04/18 – 20/04/18).

(4) https://www.fronteiras.com/artigos/maria-rita-kehl-em-defesa-da-familia-tentacular

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

AULAGNIER, P. A violência da interpretação- do pictograma ao enunciado. Rio de Janeiro: Imago, 1979.

FREUD, S. Totem e Tabu.In: FREUD, S. Obras Completas, Volume 11: Totem e Tabu, Contribuição à História do Movimento Psicanalítico e Outros Textos (1912 – 1914). São Paulo: Companhia das Letras, 2012 (1912-1913).

ENRIQUEZ, E.; FORNARI, F.; FUSTIER, P.; ROUSSILLON, R.; VIDAL, J. P. (Orgs.). A instituição e as instituições. Trad. J. P. Neto. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1989, p. 1-39.

KAËS, R. Realidade psíquica e sofrimento nas instituições. In: KAËS, R.; BLEGER, J.; ENRIQUEZ, E.; FORNARI, F.; FUSTIER, P.; ROUSSILLON, R.; VIDAL, J. P. (Orgs.). A instituição e as instituições. Trad. J. P. Neto. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1989, p. 1-39.

ROUDINESCO, E; PLON. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

VIOLANTE, M.L. Piera Aulagnier – uma contribuição contemporânea à obra de Freud. São Paulo: Via Lettera, 2001.


Esse texto também está publicado em: https://coluna.desha.com.br/reflexoes-acerca-da-instituicao-familia-do-brasil-e-da-atualidade-um-ensaio-valeria-lisondo/

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