Para Philip Roth – Sujeitos de Heranças e “Patrimônio”

Atualizado: 12 de Fev de 2019

Borges diria que é de tempo a substância de que somos feitos. Outros ressaltariam a centralidade das pulsões nessa definição. E há ainda os autores que destacam: somos sujeitos de heranças. A psicanálise é arcabouço vasto no qual cabem inúmeros matizes; recortes e nuances na maneira de oferecer contorno ao seu campo (e, evidentemente, cada leitura carrega a sua especificidade e desdobramentos próprios). Vale dizer que o ecletismo irresponsável não deveria ser confundido com a fertilidade de uma profusão de vozes e vieses dispostos a conversar e pensar a partir de suas marcas, diferenças e –  por que não dizer? – Ignorâncias.

A Psicanálise Vincular privilegia a preponderância dos vínculos na constituição do sujeito, seus sofrimentos e devires.  A lente que observa vínculos é uma lente que observa uma linhagem histórica, uma cadeia transgeracional: heranças. O resgate do conceito de Narcisismo enunciado por Freud em 1914: “O indivíduo tem de fato uma dupla existência, como fim em si mesmo e como elo de uma corrente, à qual serve contra – ou de todo modo, sem – a sua vontade “ é pedra angular dessa perspectiva. Dentre os inúmeros autores que contribuíram nessa “ toada”, escolho grifar aqui o trabalho de Kaes. Especialmente no que se refere à noção de “Alianças Inconscientes” – construção pautada na seguinte apreensão:


Para Kaes, o sujeito psíquico se constitui sobre um duplo apoio (étayage), o apoio corporal e o intersubjetivo. Estamos assim destinados a nos constituirmos sobre um corpo e sobre vínculos”  (CASTANHO, 2018, p. 54).


Mário de Sá Carneiro – poeta português talvez tenha dito coisa parecida em certo sentido: “Eu não sou eu nem sou outro, sou qualquer coisa de intermédio”.  É no apoio intersubjetivo que se faz sujeito. É de vínculos e corpo que se constitui nosso alicerce.  Interessante pensar como essa noção vai na contramão das mensagens discursivas que atestariam a “soberania” irrestrita de um “Eu” como ente absoluto, dado, natural, fechado – propagadas com tanta veemência por aí.  Tudo isso também se articula com o belíssimo livro: “ Recusa do não-lugar” de Juliano Garcia Pessanha que começa da seguinte forma: “ esse livro trata da determinação existencial e do anseio de se ter um “eu”. Como alguém acolhe a determinação existencial e cabe no mundo? ” (PESSANHA, 2018, p. 11).

Como alguém cabe no mundo?  Como alguém “é” se não “é”? Se seu ser é forjado no intersubjetivo? Sujeitos de Heranças – Transmissões… todo esse caminho para desembocarmos em Philip Roth. Todo esse texto é uma homenagem ao escritor.  Tomada da mão do autor em um de seus livros, as questões acima apresentadas puderam ser enunciadas com um vigor e honestidade impressionantes. A dedicatória é a seguinte: ”Para a nossa família, os vivos e os mortos”. O livro: “Patrimônio – Uma história Real”.


Na obra autobiográfica, Roth é o filho que testemunha a luta do pai de 86 anos contra o tumor cerebral que irá mata-lo. É um livro sobre a morte. É um livro sobre a vida. É um livro sobre sua família, sobre si próprio – o judaísmo, seus antepassados, Newark. A herança – o “prosaico-divino” de uma tigela de barbear. A finitude como destino de qualquer êxito. É um livro também sobre humildade – no qual o escritor reconhece quanto de si é graças aos outros. Graças ao pai – sua tenacidade, seu teimoso e firme pacto com a vida.

Tomo a liberdade de transcrever um trecho do livro. Trata-se de Philip Roth às voltas com a decisão que fez ao ceder a sua herança para seu irmão.


” … Mas agora, com sua morte deixando de ser algo remoto, saber que ele fora em frente e, com base no meu pedido, praticamente me eliminara como um de seus herdeiros provocou uma reação inesperada: me senti repudiado – e o fato de que a exclusão havia sido causada por mim em nada mitigou o sentimento de ter sido rejeitado por ele. Eu tinha feito um gesto generoso que também se encaixava, assim supunha, nos discursos de igualdade e autorrealização que eu fizera a papai desde o começo da adolescência. Cumpria também admitir que se tratava de uma tentativa bastante característica de assumir uma postura de superioridade moral dentro da família, definindo-me aos cinquenta anos – da mesma forma que eu fizera na universidade e mais tarde como jovem escritor – como um filho para quem as considerações materiais eram praticamente irrelevantes. Mas me senti arrasado por ter feito aquilo: ingênuo, bobo, arrasado mesmo.


Para meu grande desgosto, ali de pé ao lado dele, vendo o testamento, descobri que queria a minha parte da sobra financeira acumulada durante uma vida inteira, contra todas as probabilidades, por aquele homem obstinado e resoluto que era meu pai. Queria porque o dinheiro lhe pertencia e eu, como seu filho, tinha direito a um quinhão. E queria também porque, embora não se tratasse de um pedaço genuíno de seu couro de trabalhador, era uma forma de corporificação de tudo que ele superara e a que sobrevivera. Era o que ele tinha para me dar, era o que havia desejado me dar, o que me era devido pelos usos e costumes e pela tradição – por que cargas-d`água eu não tinha calado a boca e permitido que as coisas seguissem seu curso natural? 

Será que eu não me achava digno daquilo? Será que considerava meu irmão e seus filhos mais merecedores como herdeiros do que eu, talvez porque meu irmão, ao lhe dar netos, houvesse conquistado mais legitimidade como herdeiro de um pai do que um filho que não havia procriado?” (p. 82-83). 


“Patrimônio” – é de voltagens emocionais, ambivalências, lacunas e intensidade que se dá o devir herdeiro. Que cabemos no mundo. Gratidão ao escritor imenso que nos legou- dentre tantas coisas-  o relato corajoso da sua experiência.  Se ficamos todos mais órfãos sem a sua presença viva entre nós; ficamos todos mais ricos na companhia de sua obra. O que seria de nós sem essas heranças?


Referências Bibliográficas:

CASTANHO, P.  Uma Introdução psicanalítica ao trabalho com grupos em instituições. São Paulo: Linear B, 2018.

FREUD, S. (1914). Introdução ao Narcisimo. ( Obras Completas volume 12). São Paulo, Companhia das Letras, 2010.

KAES, R. As alianças inconscientes. São Paulo: Ideias & Letras, 2014.


Este texto também está publicado em Desha: https://coluna.desha.com.br/para-philip-roth-sujeitos-de-herancas-e-patrimonio-valeria-lisondo/

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